...Estou um bocadinho repetitiva, já sei... disse anteriormente que em 2012 antecipava com alguma ansiedade a possibilidade de chegar a 2013 e poder comemorar, não só o centenário do meu pai, mas também os 25 anos do meu casamento e até os 21 anos do meu filho Diogo, que me parecem uma nova maioridade. Para além de tudo isso, eu própria, estava de parabéns pelo fim da licenciatura de 3 anos que consegui fazer tal como tinha planeado....Bem, as datas não são assim tão, tão importantes para mim, não pensem! Mas, às vezes, gosto de atribuir a certas datas a importância de marcos inesquecíveis... Sim, fazer sempre do mesmo modo torna-as banais, corriqueiras e nada memoráveis...Como "os Natais", por exemplo...
Talvez, uma das minhas maiores frustrações de sempre, tenha sido passar anos a sonhar com um dia de Natal especial, até tinham passados alguns sem festa e sem espírito de Natal, e tinha prometido a mim mesma construir um dia, um natal à medida dos os meus sonhos....Assim que casei, lembro-me que fui comprar os meus enfeites de natal ao Bazar Paris, no Porto, pena serem tão caros lá.... Nos anos seguintes aumentei o arsenal e fiz eu própria alguns com a ajuda das revistas da especialidade, sem as quais não passava! Houve anos que fiz até o meu próprio papel de embrulho, e durante muito tempo re-embrulhei os embrulhos das lojas, porque não estavam à minha altura!! Enfim, coisas...
Talvez um dos melhores anos tenha sido aquele em que quase era apanhada a costurar o enorme saco onde o Pai Natal iria trazer os presentes. O Diogo que continuava acreditar que ele, o Pai Natal, vinha mesmo, estava mais crescido e isso dificultava-me a vida para fazer aparecer os presentes debaixo da árvore em 5 minutos sem ele perceber... Por isso, nesse ano, o Pai Natal entregaria o saco dos presentes, à porta, depois de bater e fugindo sem que o víssemos.
Afinal, o meu Sonho era que os meus filhos acreditassem que o Pai Natal podia muito bem existir, realizar os nossos desejos e trazer os nossos presentes de sonho!
Então, anualmente instalou-se uma rotina de certa forma custosa, pelo menos para mim, psicologicamente, ou mais para mim do que para os restantes membros da família de, naquela data, mais ou menos à mesma hora, sair da nossa casa para irmos para a casa dos sogros, onde repetidamente, fizemos a nossa noite de Natal, resumida ao jantar e à espera da meia-noite para a entrega dos presentes. À mesa reuníamo-nos sempre os mesmos, mais ou menos nos mesmos lugares da mesa, com a mesma proteção no tapete, as mesmas porcelanas de sempre. Até as partes do bacalhau estavam como que destinadas vitaliciamente para cada um de nós!
Não, não, serei injusta se atribuir culpa a alguém, a existir será sempre minha! Eu é que vivi obcecada em querer recuperar uma felicidade do natal perdido na infância que me levou a fantasiar em excesso, e provavelmente continuo a fantasiar, o Natal é tudo menos um momento perfeito.
No entanto, apesar de toda a rotina, guardo com carinho a imagem das Tias solteiras que só víamos praticamente nesse dia ( uma das quais perdemos recentemente), do avental que nunca largou a minha sogra, do nervosismo do meu sogro com a sua distribuição de envelopes, já que nunca se deu à maçada de comprar um presente para nós. Era a sua maneira... mal ele sabe que um ano, andei quilómetros a pé, na cidade do Porto, para encontrar o aquecedor de cálices de conhaque que eu queria oferecer-lhe... e nada de aparecer, a não ser um mais antiquado que eu sei lá.... Já prestes a desistir e toda suada, encontrei um mais caro e tudo, mas era aquilo que eu procurava, nada mais interessava. E eu achava e acho, que isto valia tudo, ou mais do que dar aquilo que não nos faz falta nenhuma e sem esforço nenhum!
Durante esses anos, dispensada que estava de ajudar nas lides da consoada, evitando o risco de me tornar um estorvo para a minha sogra, habituada que estava a coordenar tudo à maneira dela; pelo que, fiquei sempre livre para fazer visitas durante a tarde da véspera de natal, e das quais guardo as melhores memórias.
Passava então pelos amigos para deixar os presentes possíveis, e fazia-o sempre à socapa das minhas crianças, a estratégia de ocultar a identidade do Pai Natal era levada ao limite. Pelo caminho, provava as filhós da prima G., onde aproveitava para pôr a conversa atrasada desde o ano anterior, com a Tia M, a prima N, e os primos mais novos.
Hoje em dia e desde há já alguns anos que fazemos do Natal um momento familiar mais íntimo, a quatro, no calor da nossa casa. As iguarias são feitas por mim na tarde da véspera de Natal, sem grandes caprichos, mas ao que parece, consigo fazer umas boas rabanadas, o que já não é mau de todo! E para o bacalhau usamos a panela gigante que compramos em 2010 para uma outra festa célebre de que vos darei conta um dias destes...
Tenho ainda saudades de outra coisa que já não faço desde que os miúdos cresceram - deixar as bolachas num pires, na chávena um bocadinho de leite fresco para o Pai Natal... e voltar atrás, assim que chegava à garagem antes de sairmos de carro, com a desculpa de um esquecimento qualquer... Corria, abria a porta, engolia as bolachas e o leite às 8 da noite, e regressava ao carro a limpar a boca como se nada se tivesse passado.E quando chegávamos à noite, qualquer uma das minhas crianças, a primeira coisa que fazia era confirmar que o Pai natal tinha passado ali... e só tinha deixado... migalhas!E não é que tinha?!
Águas Santas, 16 de Novembro de 2013
Nunca consegui que me compreendessem devidamente!
(Depois admiram-se quando solto as minhas "cornadas", cornadas que é como quem diz! Qual toiro (a) enraivecido(a).... que rapidamente se senta na arena a cheirar uma flor, como o Touro Ferdinando, já que a minha raiva vai-se sempre embora muito mais depressa do que veio!)
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