sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Passo a vida a lembrar-me deles orgulhosamente...

...Orgulhosamente, gosto de me lembrar de certas pessoas que tive na minha vida. Uma delas era um amigo de infância, difícil, o Primo Z. Às vezes pergunto-me se alguém sabe o quanto eu representava para ele e o quanto ele acabou por influenciar a minha vida.

A minha avó materna, ou melhor, a avó de ambos, costumava dizer : "Quanto mais prima, mais se lhe arrima!" - por acaso não se aplicou, porque simplesmente éramos muito diferentes. Quando éramos mais novos, estávamos "pegados" constantemente, coisas de miúdos que ninguém ligava. O pior é que, quem o aturava era eu!

Assim que crescemos tornámo-nos mais íntimos, cada qual tinha os seus problemas de adolescente,  muito armados em crescidos, muito independentes, e esquisitos até..

Nessa altura partilhávamos muitas coisas, desde jogos, especialmente os de caneta e papel que levávamos para todo o lado, música que ouvíamos juntos, tipo, Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Djavan, Rita Lee.. ou melhor, eu tinha sido alienada pelo Z. que adorava música brasileira, comprava LP's importados e tudo.

"Coisas de menino rico", sim, um dos problemas do primo Z. foi ter sido um menino a quem pretenderam comprar felicidade com "coisas". Até eu, às vezes, era usada para a satisfação dos seus desejos - não que eu me importasse de ser usada, obviamente. Só assim pude, por exemplo, ir à Cornélia a Lisboa e dar um beijo ao meu ídolo Raúl Solnado. Comer dois gelados no mesmo dia, claro que a "reboque" do primo... herdar o almanaque com a lombada descolada que o primo não queria, e até comprar-lhe livros rejeitados a preço de segunda-mão, me parecia uma benção na altura. Ficar na praia até tarde, e ir de carro para casa dos tios em vez de ir de comboio com a mãe.

Vou abreviar as partes dos "sofrimentos" que ele me infligia: para além de me obrigar a ouvir repetidamente as músicas, e eu ter que dizer quem era o intérprete; ser obrigada a cantar músicas do Walt Disney em brasileiro e ser pontuada quase sempre com más notas, apesar da tia M adorar sempre o que ouvia. Comparar os meus resultados escolares de Bom e Muito Bom com a notas máximas e QI elevado que nem precisava estudar.
Só não sorria tanto como eu, nem parecia tão feliz como eu. Dizia a Tia M, e com razão.

São mesmo muitos os episódios de que me lembro, e o que sei é que foram muitos os dias em me divertia valentemente, e até tarde, muito tarde à noite, exactamente como eu sonhava poder fazer.
Arranjo sempre alguém para me ouvir falar do Primo Z, ainda hoje, quando já passaram mais de 20 anos desde que ele desistiu de viver. (link:"Cais" de Milton de Nascimento)

Duvido que alguém tenha tido um Primo Z. assim!

P.S: quando perdi o primo Z. gostaria de ter ficado com um livro ou um disco dele, sinal de que alguém se tinha lembrado que eu fui a sua melhor amiga e companheira, e que a outra prima de que dizem ele ter gostado mais, nunca soube ouvir a sua música e as suas bandas desenhadas, como eu. Disso tenho a certeza.

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